Se o filme "Crash: Estranhos Prazeres", de David Cronenberg, causou perplexidade quando foi lançado, em 1996, o romance que o inspirou, publicado em 1973, é ainda mais radical, incômodo e perturbador.
Narrado por roteirista de cinema e publicidade, mistura um minucioso realismo à mais ousada fantasia ao retratar uma irmandade de indivíduos doentios, obcecados pelas possibilidades eróticas dos desastres de automóvel. O líder passa seus dias nas vias expressas da região do aeroporto de Londres, procurando acidentes sangrentos, que ele fotografa em detalhes escabrosos. Depois, com prostitutas colhidas à beira da estrada, busca reproduzir, em bizarros atos sexuais no interior do carro, as posições das vítimas.
Conduzido por um narrador cada vez mais perplexo e fascinado com a descoberta desse mundo em que o erótico, o mecânico e o macabro parecem se fundir, "Crash" pode ser lido como um retrato singular, sob a forma de pesadelo da realidade insana em que trafegamos todos os dias.