Primeiro romance da jornalista Nina Lemos, "A Ditadura da Moda" conta a história de Ludimila Correia, uma garota que dita moda. Não que ela goste de ser chamada assim. Afinal, é filha de comunistas, nascida em plena ditadura militar, e teve o pai morto pela repressão.
Na verdade, nada em sua criação -- marcada por reuniões do grupo "Tortura Nunca Mais" e participação nos comícios pelas eleições diretas -- indicava que ela se tornaria uma pessoa que senta na primeira fileira nos desfiles das semanas de moda e escreve coisas como "silhueta reta é o must da temporada" em uma coluna chamada "O que Todos Têm que Usar". Mas é isso que ela gosta de fazer.
Cedo ou tarde, é claro, o passado bateria à sua porta exigindo explicações. Ludimila só não esperava que isso fosse acontecer no meio do São Paulo Fashion Week, quando se pegou escrevendo em seu bloquinho, sem motivo aparente, a frase: "o povo, na rua, derruba a ditadura".
A partir daí, sua vida se torna um verdadeiro desfile de palavras de ordem, que se manifestam nos momentos mais impróprios e ao mesmo tempo parecem apropriadas para tudo -- de relacionamentos malsucedidos a eventos bizarros promovidos pelo mundo da moda. Pela primeira vez, a garota que dita moda se sente desconfortável com a própria condição.
E, para piorar as coisas, sabe bem que, para resolver uma crise de identidade, não há outra saída a não ser a reconciliação com o próprio passado.