Vemos desfilar aqui o Japão gélido e impassível do mundo dos negócios, das aparências que enganam, da funcionalidade levada às últimas consequências, sem esquecer uma penca de personagens solitários em busca de algum carinho (inexistente?).
Esta história detetivesca rompe alegremente com os cânones do gênero, servindo a rigor para colocar em cena a amizade como tema recorrente. O fato, aliás, de nenhum dos personagens principais ter nome constitui uma das facetas de uma apurada técnica narrativa em que o autor inova sem fazer alarde. Alguns produtos de sua imaginação são surpreendentes: o autor estende aos limites do impessoal um mundo dominado pela mídia, no qual as relações humanas "normais" são substituídas por uma atração fetichista por objetos e marcas. Pois não é apenas num fim de mundo de condições extremas e povoado de personagens os mais inusitados que, à sua maneira, estes poderão satisfazer sua necessidade de comunicação? O relacionamento homem-mulher não passa de um simulacro, um aparato meramente funcional e cabal, em último caso requentado pelas orelhas perfeitas que rondam perigos insuspeitos. Perigos de fim de mundo, literalmente: a força de certos reencontros não é suficiente para desencadear explosões quase atômicas? Ao mesmo tempo, Murakami deixa sutilmente pairar no ar a questão de manipulações genéticas com fins militares, e aí a coisa vai longe.
Já não é sem tempo o público brasileiro ter acesso à obra de um dos mais interessantes e populares autores da atual safra de escritores japoneses, onde os personagens suam a camisa pela carreira, bebem demais, navegam por casamentos desfeitos, tudo isso sem um único quimono à vista no horizonte. Um romance detetivesco pós-moderno em que sonhos, alucinações e imaginação desvairada são mais importantes que provas ou pistas.