"20 contos de Truman Capote" (Companhia das Letras, 2006) apresenta a genealogia de um talento. Das primeiras tentativas, no início dos anos 40, quando já era possível notar o poder de observação e a habilidade para condensar situações em cenas breves, até o apogeu demonstrado nos últimos trabalhos, pode-se seguir quase cronologicamente a evolução da sua prosa. A vida de Capote, ela mesma merecedora de um tratamento ficcional, também serve para traçar paralelos. O escritor era fascinado pela alta sociedade americana, e ela retribuiu a adoração. Nos últimos contos, ele se debruça com olhar agridoce sobre a infância, passada numa grande casa cheia de primos e tias no sul do país, empobrecido depois da Depressão. Entre essas duas pontas, transparece um tanto da dureza da vida de exilados na cidade grande, um bocado de solidão e de corações partidos. Um vasto e magistral desfilar de ilusões perdidas até o refúgio na infância, nos contos em que Capote mostra a sua melhor forma.