Fernando Pessoa marcou a poesia do século 20 sobretudo por ter se desdobrado em vários, com a invenção de poetas imaginários como Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis. Mas, enquanto escrevia as obras poéticas de seus outros "eus", o autor tão multifacetado não deixava de modelar a própria faceta.
"Poesia: 1918-1930" é o segundo dos três volumes que reúnem os versos que ele não atribuiu a nenhum de seus heterônimos. Por muito tempo, dessa parte da sua obra se conhecia apenas o livro "Mensagem" e mais os poucos poemas que ele publicou em vida, em revistas literárias, ou enviou por carta a seus amigos.
Nas últimas décadas, os pesquisadores começaram a dar maior atenção ao vasto acervo de inéditos que o poeta deixou sem atribuição. Centenas deles só viriam a ser publicados no século 21.
Este volume mostra um poeta a caminho da maturidade. No mesmo período, ele trabalhava a todo vapor na obra dos seus heterônimos, mas nunca deixava de voltar a seus próprios temas e inquietações.
Poeta da melancolia, para quem a verdadeira realidade é o sonho, Pessoa fez da poesia um refúgio particular, mas também uma fortaleza de onde pudesse negar o mundo e seus males. Dali, à medida que se desdobrava em outros, ele experimentou em verso o estranhamento de si próprio, e pôde assim demonstrar algo que o homem moderno sempre soube, sem saber dizê-lo: "A alma humana é estrangeira,/ E tem usos e costumes/ Fora da nossa maneira".