Parte policial, parte história de fantasmas e, no conjunto, um romance singular, a estreia literária de Catherine O'Flynn mescla elementos de mistério com detalhes de relacionamentos humanos tão complexos quanto delicados. O'Flynn consegue captar a atmosfera de uma cena apenas com pequenos detalhes, e parece ter uma simpatia inquietante --e redentora-- pelas personagens que cria.
O que conecta tudo de modo tão impressionante é a articulação emocional de O'Flynn, que absorve os tristes e estranhos absurdos da vida e os reveste de uma espécie de nobreza. Profundamente doloroso, hilariante e extremamente gratificante, "O que Se Perdeu" é memorável pelas descrições das angústias urbanas através das quais os heróis se movem como fantasmas. Presos a existências monótonas, incapazes de escapar da miséria de sua condição.
Em 1984, a investigadora-mirim Kate Meaney tem dez anos e poucos amigos: Adrian, filho de um comerciante local; Teresa, sua colega de escola; e Mickey, o macaco de pelúcia e parceiro de aventuras em Green Oaks, shopping local. Tímida, séria e excêntrica, herdou do pai --morto-- o amor aos filmes noir. O pendor para a bisbilhotice amadora ajuda a mantê-lo vivo na memória. E a suportar a avó, sua guardiã legal, que quer enviá-la a um internato.
A narrativa muda de foco e num pulo chega até 2003. Ano em que Kate não mais existe. Mas o shopping onde seguia suspeitos ainda está de pé. Green Oaks é ao mesmo tempo cenário e vilão. Um monolito de ganância e consumo. Por trás de suas portas espelhadas há um labirinto de corredores sinistros, becos sem saída, purgatório para milhares de funcionários. Principalmente para Kurt, guarda de segurança, vítima de distúrbios do sono, e Lisa, gerente de uma loja de discos e irmã de Adrian.