Quando, em 1978, Ítalo Calvino recomendou a uma editora italiana que publicasse Thomas Bernhard, apresentou-o como o autor mais importante em atividade naquele momento. Bernhard publicava à época o terceiro de cinco volumes autobiográficos, lançados separadamente entre 1975 e 1982: "A Causa", "O Porão", "A Respiração", "O Frio" e "Uma Criança".
Marcado por uma infância e uma adolescência de extrema dificuldade, Bernhard jamais conheceu o pai e teve uma relação bastante conflituosa com a mãe. Criado pelo avô --escritor anarquista, seu mestre e mentor para toda a vida--, frequentou internato e viveu o terror e a miséria da guerra em Salzburgo.
Bernhard acabou por abandonar o ginásio para ser aprendiz de comerciante e também para se dedicar ao estudo da música, uma de suas paixões. Mas o infeliz interlúdio terminou abruptamente quando uma gripe mal curada degenerou numa grave doença pulmonar. À beira da morte, Bernhard passaria boa parte da adolescência em hospitais e sanatórios, decidido a sobreviver.
No estilo inconfundível que o consagrou como um dos grandes escritores da literatura universal, Thomas Bernhard nos fala em "Origem" desse período de formação em que, à procura de si mesmo, descobriu também a literatura.