"Faróis Estrábicos na Noite", o quinto livro de ficção de Cecilia Prada, apresenta nesta coletânea de contos uma proposta tirada do título acima, frase de Guimarães Rosa. A autora é conhecida por mostrar os erros fundamentais das ideias que permeiam a sociedade, a família e desviam as pessoas do curso da autenticidade existencial.
Contudo, sua literatura não é somente introspectiva. Em diversos contos, principalmente no famoso "La Pietà", de 1972, Cecilia prova que também compreende a realidade social dos excluídos, daqueles que reproduzem em sua castigada vida cotidiana as grandes tragédias da humanidade.
Essa extensão do individual para o social também está presente no primeiro conto deste volume, "Aprendizado", que nos remete a uma visão da guerrilha dos anos 60 contra a ditadura militar, até o último texto, autobiográfico, "Tambores do Juízo Final", em que relata sua experiência em Nova York na época da crise dos mísseis de Cuba. E mesmo em "Trilhas da Madrugada" ou no extenso conto em duas partes, "Os Consagrados", retomando temas de sua infância, consegue inseri-los no panorama mais vasto das ideologias em conflito, desmascarando mitos religiosos e políticos - mantendo sempre, porém, sua linguagem literária.
A qualidade da escrita de Cecilia Prada se exerce ao tramar memória de acontecimentos, memória de valores morais e religiosos, filosóficos, de então, de hoje, enquanto rompe a palavra, divide-a, cria silêncios e fôlegos. A desconstrução do acontecimento, conseguida graças à superposição de elementos diferentes (notícia de jornal, lembrança de odores, sutis movimentos de uma cortina, que balança na janela da memória), dá vida nova ao relato e à forma de contar.
Suzi Frankl Sperber, professora de Teoria Literária da UNICAMP
Cecilia Prada é dessas mulheres inconformadas, de olhar investigativo, que registram bastante bem o comportamento das pessoas ao seu redor. Cecilia tem olhos suaves, porém céticos, pouco complacentes.
Nelson de Oliveira, escritor
O que ressalto da leitura da obra de Cecilia Prada é sobretudo o seu sofrido, prolongado e corajoso processo do reconhecer-se ‘marginal’. Daí o constante movimento duplo que sustenta a construção dos contos, no ponto e contraponto entre o mundo "modelar", dos bons costumes, devidamente institucionalizado, e o mundo à margem desse primeiro, que se alimenta da inquietação e das ansiedades, numa ilimitada fome de aventura e reinvenção.
Nádia Battela Gotlib, USP