Um dos escritores mais respeitados da literatura brasileira contemporânea, vencedor de três prêmios Jabuti e dois prêmios da Associação Paulista dos Críticos de Artes (APCA), João Silvério Trevisan possui uma marca registrada em sua obra: tirar a sujeira debaixo do tapete e apresentá-la ao leitor.
Em "Rei do Cheiro", o escritor constrói um painel da moderna sociedade brasileira através de uma narrativa surpreendentemente inovadora. O livro parte de uma pergunta quase banal: como nasce uma grande fortuna? Sua resposta visa preencher um nicho pouco abordado pela recente literatura brasileira: a formação de uma nova elite, ou seja, os novos-ricos ou "emergentes" de São Paulo, cujas raízes remontam ao período da ditadura militar.
A história segue os passos de Ruan Carlos Coronado, um personagem emblemático da nova elite paulista, rapaz simples do interior que vai para a capital, onde começa sua fortuna fabricando produtos cosméticos no fundo de sua loja na rua 25 de Março, sobretudo um desodorante de grande sucesso comercial, cujo perfume teria efeito afrodisíaco. Ruan acaba se tornando um grande empresário na área de perfumaria e cosméticos, conhecido como "Rei do Cheiro", nome de sua empresa - mas que permite várias outras inferências, como sua problemática sudorese e suas ligações com o mundo da droga, não apenas enquanto consumidor.
A partir da sua saga se articula o explosivo sequestro de um teatro em São Paulo, que mistura ficção e documentário, ao incluir os reais ataques do PCC em 2006. Num afresco ficcional assustador se acotovelam personagens emblemáticos do início do século 21, no qual se incluem ricaços, empresários, artistas, intelectuais, jornalistas, religiosos, políticos e os mais variados representantes da nova e velha elite brasileira. A eles se misturam pequenos marginais, mas também bandidos do PCC - que Trevisan rebatizou no romance de CROC (Comando Revolucionário Organizado do Crime).
O final de "Rei do Cheiro" aponta para um cenário caótico e trágico, muito próximo da realidade brasileira. Resta a pergunta no ar: afinal, quem são os verdadeiros bandidos deste país?