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O que saiu na imprensa
Cartunista reponsável por personagens clássicos como Fritz, the cat e Mr. Natural, Robert Crumb é aclamado por várias gerações de leitores de quadrinhos. Não à toa chegou a ser retratado no cinema junto ao amigo Harvey Pekar no cultuano "Anti-herói Americano" (2003). Agora, o traço peculiar - e por vezes grosseiro - de Crumb pode ser visto no excelente "Gênesis", que se propõe a recontar o livro da Bíblia quadro a quadro de maneira irreverente.
Para os brasileiros, o lançamento é melhor ainda, já que a publicação chega com exclusividade ao país. Ou seja: os leitores do resto do mundo terão de esperar um pouquinho mais. É verdade que o traço rebuscado e o despudor de Crumb incomodam muita gente - ainda mais ao tocar em temas delicados. Mas não é assim que são os artistas ousados?
Harold Bloom
Ao folhear suas páginas, eu me recordo vagamente de um número da revista Mad. Para minha visão não refinada, a obra de Crumb lembra aquela publicação, mas de alguma forma ela tocou também no que eu me lembro como o estilo proletário heroico de Ben Shahn. As caricaturas de Crumb têm o mérito inicial da estranheza na maneira de retratar os patriarcas e matriarcas do primeiro livro da Bíblia Hebraica. As pessoas do Gênesis são de fato pitorescas, mas extremamente feias na visão de Crumb. Não lamento pelos homens, mas as mulheres, de Eva a Raquel, são tão pavorosas que me deixaram infeliz. Elas mal se sustentam mesmo que se tente defender a abordagem de Crumb como de um saudável realismo. Que resposta poderia me ocorrer se um admirador de Crumb afirmasse: "Era essa mesma a aparência que eles tinham, naquela época"? Não havia "naquela época". O Gênesis é narrativa fabulosa e não fato histórico. Podemos chamá-lo de mito se quisermos. Percorrer as representações de Crumb pode não ser um deleite, mas sua posição perante a história é muito refrescante. Ele não se prende a religiosidades rançosas e corretamente não tem nenhum uso para os sentimentos sacerdotais preservados no Gênesis. A insanidade moral de fazer da justiça divina uma desculpa para o sofrimento humano é estranha a Crumb. Seja qual for o desconforto estético que eu sinta ao olhar suas mulheres, ele é mais que respondido por sua saudável cautela com Javé, uma sanidade que atribuo a sua exuberância gráfica.
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