Assista ao trailer do filme "Onde Vivem os Monstros", inspirado no livro infantojuvenil
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O que saiu na imprensa
Ronaldo Bressane
A ideia de que toda criança é um ser diferente que deseja governar um território selvagem (o título original é "Where the wild things are") não surgiu assim tão clara a Sendak. Para desenhar os maravilhosos monstros, o autor se inspirou nos tios e avós, judeus que fugiam do Holocausto e foram acolhidos pelos pais. "Tudo neles era tão alienígena! Eu e minha irmã éramos americanos; não queríamos ser estrangeiros. E eles falavam iídiche; não os entendíamos Não os queríamos por perto. Em seu jeito rude de demonstrar afeto, me assustavam. Achava que poderiam me comer!", contou Sendak ao guia NYCGo. Outra inspiração veio da própria Nova York: Sendak é do Brooklyn, e a primeira visão dos iluminados edifícios de Manhattan imprimiu em sua imaginação uma cidade amedrontadora, povoada por seres fantásticos.
Na Newsweek, o genial e genioso Sendak mandou pro inferno os pais que reclamam do caráter assustador do livro. "Que as crianças molhem as calças, ora!", chiou o autor de mais de 100 histórias infantis, cujo mítico mau humor distancia sua figura de duende da de um bom velhinho fabulista - como se nota nessa ótima conversa à National Public Radio.
Lúcia Guimarães
Max consegue controlar os monstros ao gritar, "Quietos!" e olhar fixamente nos seus olhos amarelos, sem piscar. O truque é um sucesso. O garoto passa de refeição a rei, com direito a coroa e cetro. Depois de festejarem por seis páginas suntuosamente ilustradas e sem uma única palavra impressa, os monstros recebem a ordem de ir dormir sem jantar.
Nessa hora, o menino se sente solitário e "com vontade de estar em algum lugar onde alguém gostasse dele de verdade". Desiste de ser rei e começa a empreender a viagem de regresso para o seu antigo quarto. Sua chegada em casa é resumida com delicadeza e emoção. A melhor literatura para crianças, não infantiliza o leitor.
O fim de semana passado me levou para fora de Manhattan e encontrei uma cópia de Onde Vivem os Monstros numa loja da cadeia K-Mart, na beira da estrada. A funcionária do caixa escaneou minhas compras e, quando o livro passou, não se conteve: "Uau, eu tinha este livro quando era pequena!", exclamou. Sob o clarão impiedoso da luz fluorescente, o rosto da mulher que ganha salário mínimo e cujo inglês traía uma educação precária, se iluminou num sorriso de cumplicidade. Completo o que disse antes: a literatura para crianças que vale a pena ser lida não conquista apenas o público infantil.
LUCRECIA ZAPPI
colaboração para a Folha, em Nova York
Os monstros de Maurice Sendak se parecem com os horrores da Segunda Guerra Mundial ou com a história do garoto Lindbergh, de Nova Jersey, sequestrado do berço e encontrado morto em 1932, fatos que marcaram a infância do escritor no Brooklyn, em Nova York. "Hoje em dia é o 11 de Setembro e praticamente qualquer história do jornal diário," diz o autor e ilustrador sobre a inspiração para "Onde Vivem os Monstros", que ganha tradução no Brasil, pela Cosac Naify, 46 anos depois da primeira edição.
"A não ficção sempre vai ser importante, mas não supera uma boa história fictícia. As pessoas querem e precisam de fantasia," diz Sendak, em entrevista à Folha.
Se, por um lado, o filho de imigrantes judeus poloneses une passado e presente para mostrar que o tema dos monstros não é privilégio seu, mas vem das ansiedades do inconsciente coletivo, por outro lado, se pergunta com inocência: "Mas não são todas as crianças que têm medo deles?".
O faz de conta de Sendak resiste, em todo o caso, ao moralismo da literatura norte-americana.
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