O Jack Kerouac mais conhecido é aquela figura dos romances autobiográficos do autor, meio bad boy, meio anjo torto. E, no entanto, somente os seus diários íntimos - até hoje inéditos em livro -, nos quais ele desvendou seus sentimentos mais sinceros, revelam o verdadeiro Kerouac - o seu eu mais real, mais honesto e filosófico.
Em "Diários de Jack Kerouac: 1947-1954", publicado nos Estados Unidos em outubro de 2004, o historiador Douglas Brinkley reuniu uma seleção de anotações dos diários escritos durante o período mais crucial da intrépida vida do romancista, começando em 1947, quando ele tinha 25 anos, e seguindo até 1954. Um verdadeiro retrato do artista quando jovem, estes diários mostram uma alma sensível mapeando seus próprios progressos como escritor e digerindo os seus mais importantes precursores literários, como Dostoiévski, Tolstói, Joyce, Mark Twain, Céline, entre outros. Eis Kerouac como um faminto e jovem escritor que luta para aperfeiçoar e terminar seu primeiro romance, "Cidade Pequena, Cidade Grande", ao mesmo tempo em que constrói imporantes amizades, com Allen Ginsberg, William S. Burroughs e Neal Cassady. Eis, também, Kerouac em pleno processo de gestação daquela que seria considerada sua obra máxima, "On the Road", na qual começou a trabalhar em 1957.
Nestas páginas confessionais, o leitor vai encontrar relatada grande parte dos acontecimentos imortalizados em "On the Road", a eterna e iluminada devoção do escritor por um catolicismo místico, histórias das suas viagens pelos quatro cantos dos Estados Unidos, seu amor por uma América transcendental e anotações de idéias para inúmeros textos, além da sua crônica e tocante melancolia. Além do monstro sagrado, que tinha a implacável convicção de que logo haveria "uma nova grande revolução da alma", vemos um jovem como tantos outros, cheio de dúvidas e medos, preocupado em arranjar uma namorada. Conforme fica claro na introdução, este livro "traz provas definitivas do profundo desejo de Kerouac de tornar-se um grande e duradouro romancista americano. Repletas de inocência juvenil e da luta para amadurecer e fazer sentido em um mundo de pecados, estas páginas revelam um artista sincero tentando descobrir sua própria voz". Revelam, enfim, a alma e os sentimentos por trás de "On the Road" e de outras tantas obras que transformaram a literatura e o pensamento do século 20.