Depois de ler o ensaio autobiográfico da jornalista Lynn Barber, o escritor Nick Hornby ficou tão encantado que quis transformá-lo em um filme. A história se passava na Inglaterra do início da década de 1960 e contava o romance que Lynn tivera com um homem mais velho, quando ainda se preparava para entrar na universidade.
"Havia ali personagens memoráveis, uma noção vívida de tempo e espaço, uma Inglaterra à beira de mudanças radicais, uma incomum mistura de extremo humor e profunda tristeza e coisas originais para se dizer sobre classe social, ambição e relacionamento entre pais e filhos", lembra Hornby.
Nas mãos do autor, o ensaio virou o roteiro de "Educação" ("An Education"), filme que já coleciona dois prêmios do Festival de Sundance de 2009 e três indicações ao Oscar 2010 ("Melhor Filme", "Melhor Atriz", para Carey Mulligan, e "Melhor Roteiro Adaptado", para o próprio Hornby).
Responsável pela primeira indicação de Nick Hornby à estatueta dourada, o roteiro de "Educação" chega às livrarias na mesma semana de estreia do filme em circuito nacional. Além do texto integral do longa-metragem, o livro tem dois "extras". Um deles é a introdução, em que Hornby dá uma aula de "como fazer um filme independente".
O escritor conta abertamente os bastidores da produção, em texto que é quase um ensaio à parte. Relata como resolveu os primeiros problemas do roteiro, como o final "Embora muitos finais de filmes ganhem força com coisas que deixam de acontecer por um triz, seria difícil fazer com que as pessoas se importassem se uma garota conseguia ou não se matricular em Oxford".
Hornby também desfia críticas às exigências por um apelo mais comercial da obra, lista as dificuldades em vender a ideia de uma história passada em 1962 e admite os pontos fracos de um roteirista frente a decisões importantes, como a escolha do diretor e escalação de elenco. "Quantas jovens atrizes eu conhecia capazes de desempenhar o papel de Jenny? Absolutamente nenhuma", revela, decepcionado com as tentativas. Em uma passagem minuciosamente descrita, o autor conta como se deixou seduzir pela atriz escolhida, Carey Mulligan, para quem dedica o livro: "Há tantos detalhes e tanta inteligência no seu desempenho que é impossível ficar entediado".
No filme, Lynn vira Jenny, como explica Hornby, para facilitar a construção do personagem. A jovem brilhante fica dividida entre se preparar para entrar na Universidade de Oxford ou a opção mais empolgante oferecida por um carismático homem mais velho.
É claro que o autor de "Alta Fidelidade" não deixaria de comentar a escolha da trilha sonora. Na Inglaterra de 1962, lembra Hornby, "os Beatles e os Rolling Stones já existiam, mas não tinham lançado disco algum, e a música pop ainda não era popular entre os jovens espertos de classe média". Assim, conta como apostou no jazz e na música clássica: "nós queríamos transmitir a sensação de originalidade e diferença daquela época de forma audível, e isso significava não ter guitarras elétricas".
A edição traz ainda um diário que o autor escreveu durante o Festival de Sundance, com detalhes sobre a recepção da crítica e as primeiras exibições. "O filme está sendo apresentado no pequeno cinema, e não na sala de 1.400 lugares em que vimos "500 Dias com Ela". Ninguém consegue ingressos, e isso só aumenta nosso poder de sedução. Percebo que programar nosso filme num cinema menor foi uma jogada genial de relações públicas. Nós somos o melhor filme que ninguém consegue ver", relata, entusiasmado, antes de comemorar o fato de ter acendido o cigarro da atriz Uma Thurman e de saber que sairia do festival com duas láureas: o Prêmio do Público e um pela Fotografia.
Mais do que o roteiro de um filme, "Educação" é para ser lido como um making of apaixonado de quem tem uma história e decide contá-la no cinema.