O extraordinário acervo, composto por mais de duas mil estátuas, vasos, gravuras em relevo, bustos, fragmentos de papiros, anéis, pedras preciosas e estampas, reunidos durante um período de quarenta anos, descortinam uma outra faceta de Freud. A imagem de homem austero, distante e hostil que povoa o imaginário popular ganha novos contornos: de um colecionador dedicado; um homem apaixonado e preocupado em cercar-se de belos objetos. Para Freud, a psicanálise e sua coleção de arte se desenvolveram juntas num relacionamento simbiótico, uma instruindo e enriquecendo a outra.
Freud usava a mitologia para ilustrar teorias controversas como o complexo de Édipo, situando o simbolismo antigo em um contexto moderno. Mais do que simples pesos de papel sobre a mesa, os "deuses velhos e encardidos", como os chamava, eram parte essencial de seu trabalho. Revelar o inconsciente de uma pessoa assemelhava-se muito ao trabalho doloroso e cuidadoso de um arqueólogo. "O psicanalista", ele escreveu, "como o arqueólogo, deve escavar camada após camada da psique do paciente, antes de ter acesso aos mais profundos e valiosos tesouros."
Dentro de seu gabinete, Freud criava uma opulenta e exótica galeria particular, tão abarrota de antiguidades que ele mal podia se locomover, e mantida afastada do universo mundano: nenhuma de suas obras de arte eram permitidas em qualquer outro lugar do apartamento que dividia com a mulher, os seis filhos e a cunhada, de decoração burguesa e banal.
Com base em intensa pesquisa sobre a obra de Freud e sua obsessão como colecionador de arte - que começou no final dos anos 1980, quando escrevia A interpretação dos sonhos e logo após a morte de seu pai -, a autora constrói uma imagem fartamente detalhada e íntima da vida e da época do célebre psicanalista. Tendo como cenário o cintilante e decadente fin-de-siècle de Viena, no qual floresciam as artes da pintura, teatro, literatura e arquitetura, Burke ilumina o mundo fascinante e frequentemente contraditório do pai da psicanálise.
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Faceta obsessiva do pai da psicanálise revela-se em "Deuses de Freud"