Reúne 61 contos em que o artista plástico consagrado e escritor premiado que é Nuno Ramos matura o domínio dos seus meios literários, levando a arte fundamentalmente moderna da micronarrativa (Kafka, Cortázar etc.) a um grau de apuro poucas vezes alcançado.
Se nas dimensões de parte dos textos o livro pode ser comparado, em termos brasileiros contemporâneos, aos de um Dalton Trevisan, a prosa de Nuno Ramos se diferencia, primeiro, por um maior rigor textual, distante do coloquialismo e da "prosa suja" de extração urbano-suburbana da linhagem do próprio Trevisan, ou de Rubem Fonseca e seguidores; segundo, por uma temática mais variada, que vai da realidade mais imediata à metafísica, passando pela política; terceiro, por um estilo necessariamente mais multiforme, a fim de dar conta de tal variedade: assim, cenas urbano-existenciais como "A glória" convivem com belas prosas poetizadas como "Ninguém", que por sua vez convivem com a miséria escatológica de "A velha", com a metalinguagem desiludida de "O deus leitor", a releitura cortazariana de "Regras para a direção do corpo" ou a fabulação irônica de "Pantomima".
Também nas dimensões há variação, pois os contos podem ser verdadeiramente minúsculos, com apenas um parágrafo, ou conter "extensas" três ou quatros páginas.
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